10th janeiro 2012

Publicação com 3 notas

Paro um pouco a enrolar o meu cigarro (chove) 
E vejo um gato branco à janela de um prédio bastante alto 
Penso que a questão é esta: a gente certa, gente sai para a rua, 
cansa-se, morre todas as manhãs sem proveito nem glória 
e há gatos brancos à janela de prédios bastante altos! 
Contudo e já agora penso 
que os gatos são os únicos burgueses 
com quem ainda é possível pactuar 
vêem com tal desprezo esta sociedade capitalista! 
Servem-se dela, mas do alto, desdenhando-a … 
Não, a probabilidade do dinheiro ainda não estragou inteiramente o gato 
mas de gato para cima, nem pensar nisso é bom! 
Propalam não sei que náusea, revira-se-me o estômago só de olhar para eles!
São criaturas, é verdade, calcule-se, 
gente sensível e às vezes boa 
mas tão recomplicada, tão bielo-cosida, tão ininteligível 
que já conseguem chorar, com certa sinceridade, 
lágrimas cem por cento hipócritas. 

Marcadas: Mário Cesariny

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